O que você sonhou nesta noite?


Gabriel (na foto), um anjo marinho, dá à costa depois do seu navio, o ECLIPSE DA TERRA, se ter desfeito no ar. O anjo tenta engajar tripulantes para voltar a vogar, aliciando-os com as delícias da vida a bordo e a promessa de cumprirem os seus maiores sonhos. Conta as aventuras que viveu com a última tripulação, composta por migrantes vindos dos quatro cantos do mundo: Cândida, a que dava à luz com a lua; Ipsis, a vidente do que será; Esaú, o da filha que ressuscitará; Jacó, dos muros pintados; Maria dos Prazeres, a afro-descendente que nasceu caucasóide; Violka, a cigana mais velha do mundo, e Baleia, o homem-bomba. Eis um bando de exodotas, recrutados primeiro pela extrema habilidade em sonhar, e depois pela sede de vingar-se tanto do país de origem quanto do país de destino. Haverá alguém na cidade que queira subir a bordo?

Uma das versões da história que se conta neste espetáculo diz que tudo começa no funeral de Gabriel: do alto do caixão levado em ombros ele apresenta ao público os seus amigos (entre os quais Ipsis, na foto). Conta como vislumbrou o futuro deles, e tentou intervir, entrando nos sonhos dos amigos, o que não foi fácil, pois os amigos estão sonhando coisas onde não entram anjos, estão pegando sonhos emprestados, ou simplesmente empurrando com a barriga. Primeiro o estômago, depois a moral. Mas se o estômago roncar suficientemente alto, talvez haja um milagre da revelação do isolamento total do indivíduo, e da necessidade de agir mais estrategicamente. Aí, na desimportância, na miséria, no infortúnio, os anjos poderão entrar, talvez não na forma de seres alados, mas de vagabundos, emigrantes, loucos, estrangeiros, fotógrafos, escritores, ciganos, videntes de quinta categoria, bêbados, cantores de bar, professores esgotados, putas, e coisas: amuletos, rezas, canções, fotos, gaiolas. 

Isolados, espancados e esfomeados, os indivíduos recuperam a moral mais ancestral que têm: olho por olho, dente por dente. No final, foi o que aconteceu ao Baleia (na foto), que Gabriel ajudou a romper o horizonte. Mas isso não acontece na vida real, onde seria impossível. O que vemos é só o caminho de Gabriel do velório até à cova. Eles, os amigos, também estão todos mortos, e o que acabamos de ver são apenas as suas memórias, presas na eternidade repetindo-se perpetuamente, até que consigam se libertar, modificando essa memória, transformando-se em anjos. Querem ser anjos? Anjos são crianças mortas, vendidas, raptadas, perdidas, fodidas. Somos nós.

Num lugar de São Paulo que nem é bom lembrar, um galpão abandonado por um culto pentecostal, instalou-se faz dez anos o Folias, colectivo de teatro. Hoje, o Galpão do Folias é um estúdio de paredes negras que resplandece nas noites de espectáculo. A bordo deste Galpão, um punhado de aventureiros impõe a arte teatral como experiência do real − no mesmo mundo em que, no estertor das ideologias, predominam agora as narrativas reais e fictícias dos media industriais – lutando pela democratização cultural na maior cidade de língua portuguesa. (Na foto, Maria dos Prazeres.)

O novo espetáculo do Folias, coletivo de teatro, intitulado «Êxodos: o eclipse da terra», estreou no próximo dia 4 de Fevereiro. O texto, sobre as migrações reais e metafóricas de um grupo de personagens vindos dos quatro cantos do mundo, foi escrito pelos próprios atores, a partir das suas experiências pessoais, inspirados pelas obras do escritor Gabriel García Márquez e do fotógrafo Sebastião Salgado. O espetáculo tem direção de Marco Antonio Rodrigues – diretor premiado pelas montagens de «Otelo» e «Copenhagen», entre outras  – e supervisão da escrita de cenas do dramaturgo português Jorge Louraço. «Êxodos» é um requiem teatral e o fim – ou a fuga – de um ciclo iniciado com «Orestéia – o canto do bode», em 2007.


Êxodos faz eco, por entre os contos e as palavras de García Márquez e as fotos e legendas de Sebastião Salgado, de alguns excertos da Bíblia e de alguns réquiem (Mozart, Britten, Glass). No nosso espetáculo, uma personagem pivô, na forma de anjo-narrador, sugere a figura do artista que revê a vida em retrospectiva. É como se os anjos, habituados a falar com as pessoas durante o sono, em sonhos, estivessem perdidos nos sonhos do início do milênio, sem reconhecer os caminhos e as portas, e sem chaves para entrar nessas casas que habitamos enquanto dormimos; e assim sendo, perdessem a capacidade de voar, as asas ossificando lentamente até ao dia em que não batem mais; e como se estes deuses abandonados quisessem perceber o que está acontecendo, e este espetáculo fosse a última vontade do anjo-narrador. A figura do artista revisita os seus passos. Inspirações maiores para esta fábula foram Sonhos, de Akira Kurosawa, ou 8 1/2, de Fellini, claro.



«Êxodos – o eclipse da terra» é como um retrato do planeta onde se registraram as migrações mundiais e, fazendo zoom, a história de seis personagens em fuga do território a que estavam originalmente confinados. A partir de várias idéias de êxodo (a parte final das tragédias gregas; a longa viagem dos judeus em busca da terra prometida; os relatos de emigrantes brasileiros na Europa e na América do Norte; o trabalho fotográfico de Sebastião Salgado; e os «contos peregrinos» e histórias fantásticas de Gabriel Garcia Marquez) e das experiências dos próprios atores e do restante da equipe – experiências de fronteira, de limite, de desencaixe do território nacional – tentamos materializar a fuga para fora de si mesmo.

O espectáculo não pretende desmontar a realidade ou defender uma tese, como fizeram antes «Otelo» (um dos melhores espetáculos de 2006, segundo o jornal Público, de Portugal) ou «Orestéia» (prêmio da crítica no Festival Internacional de Teatro de Havana, em 2009). O grupo tenta provocar uma vivência, em forma de alegoria viva, sobre as despedidas, as últimas palavras, as saídas possíveis.